Caso Araceli: Justiça do ES entrega processo para análise de órgão internacional 53 anos depois
18/05/2026
(Foto: Reprodução) Caso Araceli tem busca por reparação histórica em órgão internacional
No Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, nesta segunda-feira (18), o Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJ-ES) vai entegar os autos originais do processo do caso da menina Araceli Cabrera Crespo para uma ação internacional analisar.
A entrega acontece 53 anos depois do crime, que é um dos mais emblemáticos de violência sexual contra crianças. Com a aprovação da Lei Federal 9.970/2000, dia nacional foi instituído em memória à menina, desaparecida em 18 de maio de 1973.
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Araceli Cabrera Crespo tinha 8 anos quando foi raptada, drogada, estuprada, morta e carbonizada em Vitória. Três homens chegaram a ser acusados e condenados pelo crime, mas foram absolvidos posteriormente.
Até hoje, ninguém foi punido pelo crime, que prescreveu em 1993. A última atualização sobre o caso tinha ocorrido em fevereiro de 2026, quando Dante de Brito Michelini, um dos absolvidos, foi decaptado.
Caso foi denunciado à OEA em 2023
O caso foi denunciado em 2023 à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA).
A expectativa é que os documentos entregues na tarde desta segunda-feira sejam usados em um pedido de reparação histórica em favor dos direitos das crianças e adolescentes vítimas de violência sexual.
Segundo o TJ-ES, a entrega do material será realizada em agenda reservada, seguindo regras previstas na Lei de Acesso à Informação e na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Os destinatários também vão assinar um termo de confidencialidade.
Araceli Cabrera Crespo, morte da menina há 53 anos, marca o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes
Arquivo
O membro do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), Carlos Nicodemos, explicou que a entrega contará com a presença de autoridades que acompanham o pedido ao órgão internacional.
"Trata-se de um momento histórico em que uma pauta de enfrentamento as violências contra crianças e adolescente ganha contorno de memória, verdade e justiça", afirmou.
O evento também contará com a presença do irmão de Araceli, Carlos Cabrera Crespo. Ele vive no Canadá há mais de duas décadas e participará do momento de forma on-line.
Em fevereiro de 2026, Carlos falou ao g1 sobre o fato da irmã ter se tornado um símbolo da luta contra a violência sexual infantil.
"É importante lembrar, sim. Mas o que mais dói é ver que a violência continua".
Relembre o caso
Araceli desapareceu em 18 de maio de 1973, após sair da escola, em Vitória. Dias depois, o corpo da menina foi encontrado com sinais de violência sexual e desfigurado.
Em entrevista ao g1, Carlos contou que a família havia se mudado meses antes para o Bairro de Fátima, na Serra, quando Araceli desapareceu. Segundo ele, além da perda da irmã, os pais também enfrentaram acusações e boatos durante a investigação.
"Tentaram culpar meus pais, levantaram mentiras sobre minha mãe e aquilo acabou com a nossa família", lembrou.
Os pais de Araceli eram imigrantes: o pai era espanhol, e a mãe, boliviana. Segundo o filho, eles tinham pouca escolaridade.
"Meu pai saía de madrugada e voltava de noite. Tudo que conquistou foi trabalhando. E, mesmo assim, transformaram minha mãe em suspeita", disse.
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Reportagem sobre o caso Araceli, no Espírito Santo
CEDOC/ A Gazeta
Sem estrutura e sem parentes próximos no Brasil, os pais passaram a enfrentar não só a perda da filha, mas também boatos publicados sem comprovação.
Carlos lembrou que a mãe chegou a ser acusada de envolvimento com tráfico de drogas, algo que nunca foi provado.
“Nunca acharam nada na nossa casa. Nada! Mas escreveram o que quiseram. E a gente não tinha como se defender. Minha mãe ficou muito abalada com tudo. Pouco tempo depois, meus pais se separaram. Nossa família se desfez ali".
Após a separação, a mãe Lola Cabrera voltou para Bolívia, onde se casou e teve duas filhas. Já o pai, Gabriel Sanchez Crespo, casou com uma brasileira e teve dois filhos, um homem e uma mulher.
Lola e Gabriel já são falecidos.
Pai de Araceli reconheceu o corpo encontrado, no Espírito Santo
CEDOC/ A Gazeta
Testemunhas e contradições
Durante as investigações, provas e depoimentos misturaram fatos com boatos. Diante dos fatos apresentados pela denúncia do promotor Wolmar Bermudes, a Justiça chegou a três principais suspeitos:
Dante de Brito Michelini (o Dantinho)
Dante de Barros Michelini (pai de Dantinho)
Paulo Constanteen Helal
Todos os suspeitos são membros de tradicionais e influentes famílias do Espírito Santo.
Dantinho (à esquerda), Paulo Helal (centro) e Dante Michelini (à direita)
Reprodução/ TV Gazeta
Depois do julgamento, os envolvidos se recusaram a falar sobre o assunto com a imprensa diversas vezes.
Dante de Brito Michelini morreu em 2026. Ele foi encontrado decapitado e carbonizado. A cabeça dele foi encontrada dias depois. O pai dele já era falecido.
Em um raro registro, Dante de Barros Michelini, falou em 1993 da sua versão da razão pela qual seu nome e de seu filho foram ligados ao caso Araceli.
"Nem eu, nem meu filho conhecíamos a Araceli, nem a mãe, nem o pai, nem coisa nenhuma. Fomos ligados ao caso após uma notícia de um jornal local", falou, na época.
Versão da acusação
A versão da morte da menina apresentada pela acusação, que mais tarde terminou no julgamento dos acusados, afirma que Araceli foi raptada por Paulo Helal, no bar que ficava entre os cruzamentos da Rua Ferreira Coelho e a Avenida César Hilal, após sair do colégio.
No mesmo dia, a menina teria sido levada para o então Bar Franciscano, na Praia de Camburi, que pertencia à Dante Michelini, onde foi estuprada e mantida em cárcere privado sob efeito de drogas.
Por causa do excesso de drogas, Araceli entrou em coma e foi levada para o hospital, onde já chegou morta. Segundo essa versão, Paulo Helal e Dantinho jogaram o corpo da menina em uma mata, atrás do Hospital Infantil, em Vitória.
Em entrevista ao Globo Repórter de 1977, o promotor Wolmar Bermudes explicou a quem se destinavam as acusações.
"O Dante Michelini pai pesa a acusação de haver mantido a menor em cárcere privado, dois dias, no sótão do seu bar, em Camburi. Contra os dois, o Dante Filho e o Helal, pesam as acusações de haver os dois ministrado à infeliz menor tóxicos e haver, ainda, de maneira violenta, mantido congresso carnal com a infeliz menina", disse na entrevista.
Ainda segundo a denúncia, Dante Michelini usou suas ligações e influência com a polícia capixaba para dificultar o trabalho da polícia. Além disso, testemunhas-chave do processo morreram durante as investigações. Nenhuma dessas acusações foi provada.
Durante o julgamento, Paulo Helal e Dantinho negaram conhecer Araceli ou qualquer outro membro da família Cabrera Crespo.
Julgamento
Em 1980, o juiz responsável pelo caso, Hilton Silly, definiu a sentença: Paulo Helal e Dantinho deveriam cumprir 18 anos de reclusão e o pagamento de uma multa de 18 mil cruzeiros. Dante Michelini foi condenado a 5 anos de reclusão.
Na ocasião, o juiz Hilton Silly disse em entrevista ao Jornal da Globo que os três foram condenados, porque foi provada a materialidade e a autoria do crime.
"Foi através não só da farta prova testemunhal, mas também, sobretudo, da prova indiciária, que é chamada prova artificial indireta por circustancial, baseado em indícios veementes, graves, sérios e em perfeita sintonia de causa e efeito com o fato principal", afirmou em 1980.
Em 1991, os acusados recorreram da decisão e o caso voltou a ser investigado. O Tribunal de Justiça do Espírito Santo anulou a sentença, e o processo passou para o juiz Paulo Copolilo, que gastou cinco anos para estudar o processo.
Por fim, ele escreveu uma sentença de mais de 700 páginas que absolvia os acusados por falta de provas.
Em 1993, o caso prescreveu sem que ninguém fosse punido.
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