Do grão à experiência: como o Caparaó transforma café em produto turístico e amplia o potencial do Sul do ES

  • 31/05/2026
(Foto: Reprodução)
Café se transforma em produto turístico e amplia o potencial do Caparaó do ES Conhecido pelos cafés especiais, cachoeiras de águas transparentes e pelo Pico da Bandeira, a região do Caparaó capixaba, no Sul do Espírito Santo, tem, desde o início deste ano, um novo atrativo que combina natureza, gastronomia e cultura local para movimentar a economia na região. Chamado de "Experiência com cafés de origem Caparaó", o projeto é um roteiro que pretende diversificar a renda no campo e transformar a cafeicultura em um produto turístico, em todas as suas fases de produção, explorando o destino para além do ecoturismo. 📲 Clique aqui para seguir o canal do g1 ES no WhatsApp Passando por Divino de São Lourenço (distrito de Patrimônio da Penha), Dores do Rio Preto (sede e distrito de Pedra Menina), Ibitirama, Irupi e Iúna (distrito de São João do Príncipe), agora é possível desfrutar de vivências nas propriedades rurais que passaram de pai para filho e servem de sustento para as famílias. Em algumas delas, as experiências são mais sensoriais, com degustação guiada; em outras, o turista pode acompanhar o processo de colheita, secagem e moagem dos grãos especiais. Café do Sol Nascente, em Iúna, Caparaó, Espírito Santo. Divulgação LEIA TAMBÉM: GUIA PARA VISITA: Parque Nacional do Caparaó: montanhismo, cachoeiras e paisagens deslumbrantes para se conectar com a natureza 'PAU GIGANTE': conheça a capital do pastel e do 2º maior Buda do mundo HISTÓRICO: Conheça o convento com mais de 460 anos e que segue em plena atividade no ES Há ainda a opção de finalizar a visita com um café colonial, como é o caso do negócio da família responsável pelo Café do Sol Nascente, em Iúna. Lá, os produtores recebem, em um casarão centenário, visitantes que passeiam pela região e decidem fazer uma pausa para comer na varanda do imóvel que parece saído de filmes antigos. "Nós preservamos a casa há quatro gerações, é onde o meu bisavô morou, uma casa de pau a pique localizada entre várias pousadas no Caparaó", explicou a empreendedora Deisy Prottes, de 42 anos, que gerencia o negócio. O interesse dos turistas pela casa, a falta de cafeterias próximas aos pontos turísticos da cidade e a experiência da família na cafeicultura foram a combinação perfeita para fazer surgir a ideia do negócio. “A vida inteira nós trabalhamos com café, foi passando de geração para geração. Aí, em 2024, decidimos abrir a casa. A região do Caparaó cresceu muito, aqui nós tínhamos várias pousadas, restaurantes, mas cafeteria não.” Café do Sol Nascente, em Iúna, Caparaó, Espírito Santo. Divulgação A ideia de Deisy, que foi apoiada pelo pai e irmão que cuidam das lavouras, no entanto, só começou a dar resultados a partir da estruturação do roteiro pelo Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Espírito Santo (Sebrae/ES). Ela contou que, antes, estava perdendo as esperanças de que a iniciativa daria certo. "O Sebrae chegou e a equipe abriu os meus olhos. Eu troquei algumas coisas do cardápio, passamos a guiar as pessoas pela trilha do café, mostrando como funciona o cultivo. Agora está dando muito certo." A turista Simone Brasileiro, de 38 anos, de Campos dos Goytacazes (RJ), contou que conhecer o local foi uma experiência que vai muito além do café. “É um lugar que te acolhe de verdade.” "Cada cômodo foi transformado em um cantinho com mesas, e tudo ali lembra muito um café de vó. Aquele lugar onde a gente se sente seguro, acolhido e com vontade de ficar. Existe uma energia muito afetiva ali", relatou a fotógrafa. A turista Simone Brasileiro experenciou o Caparaó no Espírito Santo e se apaixonou pelo café da região. Reprodução O planejamento, que alavancou o negócio do Café do Sol Nascente e outros nove empreendimentos do Caparaó, se deu com o objetivo de oferecer uma gama de possibilidades para aumentar o tempo de estadia dos turistas nas cidades da região, como explica Leonardo Ferreira, analista da regional Caparaó do Sebrae/ES. "A gente criou o roteiro com o objetivo de ter um 'cardápio', algo abrangente que trouxesse mais capilaridade para aumentar o tempo de estadia dos turistas. E, automaticamente, a gente vai promovendo o desenvolvimento da região por meio dessas ações". Para o especialista, a linha entre o turismo e a cafeicultura no Caparaó já é muito tênue, considerando que a região tem grande relevância na produção de café nacional. “Toda essa relevância, toda essa qualidade, tem uma interface muito grande com o turismo. Além disso, o clima no Caparaó é ameno e há diversas cachoeiras.” Resultados para a economia e ensinamentos para os turistas Café Cantinho da Floresta, em Divino de São Lourenço, Caparaó, Espírito Santo Divulgação Ampliar o portfólio de atrativos no Caparaó para impulsionar ainda mais o turismo na região passou a ser uma demanda devido à reforma tributária. Desde que as mudanças passaram a valer, os municípios do Espírito Santo têm buscado alternativas para resistir à perda de arrecadação. ⁉️ Com a reforma, impostos federais, o ICMS estadual e o ISS municipal serão substituídos por dois novos impostos: a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). Além disso, o tributo sobre o consumo passará a ser cobrado no local onde os produtos são consumidos, no "destino", e não mais onde eles são produzidos. Por isso, alguns municípios podem perder receita, visto que eles passam a depender mais de onde as pessoas consomem. Conforme o analista do Sebrae, o turismo é uma das maneiras mais eficazes de fazer com que o consumo nas cidades aumente. "Trazer o turismo para dentro faz com que eu traga dinheiro de outros locais para dentro desses municípios, ou para dentro do Estado. Então, o que a gente quer é fomentar o consumo dentro do estado para que isso gere receita para os municípios e eles não sejam tão impactados pela nova reforma tributária." A Secretaria de Cultura e Turismo de Dores do Rio Preto, Denise Maria Silvério, afirma que a medida agrega muito valor aos cafés especiais e à região, e que, com o tempo, vai promover melhorias para a própria população. "Para nós, é de extrema importância que cada vez mais o turismo cresça e a população abrace essa causa para fazer crescer o consumo local, gerar renda, gerar receita e gerar melhorias no município também. Porque, com isso, a gente vai melhorando as estradas, melhorando os acessos, melhorando a parte visual e turística do município." Mas, para além de gerar receita às cidades, o roteiro tem outro impacto. Sob o slogan "do pé à xícara", o projeto incentiva um compartilhamento de conhecimentos - o que as famílias que trabalham há dezenas de anos com o café têm de sobra. Café Cantinho da Floresta, em Divino de São Lourenço, Caparaó, Espírito Santo Divulgação Para o produtor rural Leôncio de Sousa Aguiar, de 34 anos, este é, inclusive, um dos principais pontos positivos do projeto. "Agrega valor ao produto e também traz aprendizado", defende ele. Responsável pelo Café Cantinho da Floresta, em Divino de São Lourenço, Leôncio contou que a família está há mais de um século cultivando café no mesmo solo. Tendo iniciado a produção especial em 2021, agora ele e os pais planejam abrir uma cafeteria para proporcionar uma experiência completa aos visitantes. "Nós vamos levar os turistas à lavoura, depois ao terreiro, em seguida terá a degustação para mostrar como a gente identifica se o café é especial ou não. Isso porque muita gente de grandes cidades não conhece o café. Acha que é um produto fácil que plantou ali, colheu, arrancou, depois plantou de novo. Mas o café exige um cuidado." O subsecretário de Turismo de Irupi, Weuller de Souza, que também é barista, complementa. Para ele, as degustações guiadas também são responsáveis por levar "muita informação sobre o café especial, especificamente o do Caparaó, explicando o slogan 'naturalmente doce, sensorialmente diverso'." Além disso, o subsecretário pontua que o roteiro atua trazendo valorização à região, que pode se consolidar como importante destino turístico no país, e às famílias "que se esforçam todos os dias para continuar produzindo com muita técnica e qualidade esse produto que hoje enaltece o nome da região." "Essa valorização impulsiona e gera pertencimento para os jovens e crianças que crescem no meio cafeeiro, lhes dando propósito de sucessão no agronegócio familiar", afirma Weuller de Souza. Identidade do café e do produtor é parte central do negócio Sítio Bela Vista, em Ibitirama, Caparaó, Espírito Santo Divulgação O aprendizado, no entanto, não é restrito aos turistas. Com a elaboração do projeto, os produtores foram convidados a aprender sobre turismo de experiência e a desenvolverem, com os recursos disponíveis em suas propriedades, um produto próprio e autêntico. Ao longo de 7 meses, consultores do Sebrae acompanharam os 10 empreendimentos que compõem o roteiro para auxiliar na identificação de atributos que poderiam se transformar em atrativos únicos e compartilhar sugestões de melhorias. A ideia principal era partir daquilo que já existia e do que os proprietários desejavam criar. Assim, explica Leonardo Ferreira, a família produtora se torna a protagonista da história, tanto do café quanto do negócio. "A gente tem produtores que têm café e horta, outros que têm cafeteria, outros que têm duas variedades de café. São coisas que enriquecem a história do produtor e que dão ao turista uma oportunidade única de ter um contato com algo que é muito afetivo." Sítio Bela Vista, em Ibitirama, Caparaó, Espírito Santo Divulgação A partir deste movimento, o produtor também acredita que o trabalho árduo no campo, que resulta em um produto especial, será mais valorizado. É o caso de Pedro Alves da Silva, 48 anos, do Sítio Bela Vista, em Ibitirama. Na propriedade, o turista vai à lavoura, entende todos os processos da cafeicultura e termina a visita passando na casa do produtor para degustar o café e provar quitutes caseiros. "A pessoa que vê como é produzido o café vai se interessar mais, porque chegar no mercado e pegar um pacotinho de café é uma coisa; ver como é feito é muito diferente", disse Pedro Alves. A capixaba Aline Oliveira, 33 anos, e as amigas que saíram da Grande Vitória rumo ao Caparaó comprovam esse pensamento. "O café é produzido lá mesmo. E aí é uma outra experiência, com o friozinho, a vista, você saber que o café é de lá. O produtor contou como funciona o processo. É um café premiado também. Foi uma experiência maravilhosa", afirma. Aline Oliveira e as amigas foram ao Caparaó, no Espírito Santo, e experimentaram o café especial em um deck. Reprodução Confira opções de experiências com café na região do Caparaó capixaba: Café colonial Rota das Garças 📍Dores do Rio Preto ☕ Café colonial com produtos caseiros, frutas colhidas no quintal e vivência no campo. Villa Januária 📍Pedra Menina, Dores do Rio Preto ☕ Degustação guiada de cafés especiais em meio aos jardins da pousada, com vista para o Vale do Paraíso. Sítio Menina 📍 Pedra Menina, Dores do Rio Preto ☕ Degustação de cafés filtrados e drinks autorais em deck panorâmico, com vista para o pôr do sol. Café Cantinho da Floresta 📍Divino de São Lourenço ☕ Vivência sobre o ciclo do café, da lavoura à degustação, com história da produção familiar. Sítio Campo Azul 📍Divino de São Lourenço ☕Degustação de cafés especiais e quitutes caseiros em meio às montanhas. Café Relíquia 📍Divino de São Lourenço ☕Passeio pela lavoura, torra artesanal e degustação de cafés premiados. Sítio Bela Vista 📍Ibitirama ☕Experiência do ciclo do café com degustações harmonizadas e quitutes caseiros. Vale Encantado 📍Córrego dos Coelhos, Irupi ☕Harmonização de cafés com bala de leite e contação da história local. Café Sol Nascente 📍Rio Claro, Iúna ☕Café colonial com receitas tradicionais e cafés especiais em casarão histórico. Café do Príncipe 📍São João do Príncipe, Iúna ☕Vivência sobre torra artesanal, sustentabilidade e degustação com produtos locais. Café do Sol Nascente, em Iúna, Caparaó, Espírito Santo. Divulgação Vídeos: tudo sobre o Espírito Santo Veja o plantão de últimas notícias do g1 Espírito Santo

FONTE: https://g1.globo.com/es/espirito-santo/sul-es/noticia/2026/05/31/do-grao-a-experiencia-como-o-caparao-transforma-cafe-em-produto-turistico-e-amplia-o-potencial-do-sul-do-es.ghtml


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