PM que executou casal no ES: cabo matou cinco pessoas em 18 anos na corporação
15/04/2026
(Foto: Reprodução) PM que matou mulheres já responde a outros processos por homicídios
O cabo Luiz Gustavo Xavier do Vale, de 46 anos, que executou duas mulheres em Cariacica, na Grande Vitória, no último dia 8 de abril, também se envolveu em outras três mortes e casos de agressões ao longo dos 18 anos de atuação na corporação.
Uma das mortes aconteceu em 2009. A vítima foi um jovem de 23 anos. Já em 2022, o policial disparou e matou uma mulher trans durante uma abordagem. Em 2024, a vítima foi um homem de 39 anos, que foi alvejado com um tiro na cabeça dado pelo cabo Xavier (leia mais abaixo).
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Outras duas pessoas também ficaram gravemente feridas em episódios distintos. Um dos casos de lesão corporal aconteceu enquanto o militar fazia "bico" como segurança particular em uma boate em Itaparica, em Vila Velha.
Após o caso mais recente, o policial foi preso e está no Quartel da PM. Ele foi flagrado por câmeras fardado, em horário de serviço, atirando à queima-roupa contra Daniele Toneto, 45 anos, e Francisca Chaguiana Dias Viana, 31 anos, que estavam sentadas numa calçada, desarmadas.
Outros policiais também presenciaram a cena e não fizeram nada para impedir Luiz Gustavo de matar as duas mulheres. Vídeos mostram a ação do policial. Você pode assistir aqui e aqui.
O governo do estado pediu que todos os seis policiais sejam suspensos completamente das funções, com perdas de salários. Mas, até a publicação da reportagem, os seis PMs envolvidos no caso foram apenas afastados das ruas, cumprindo trabalho interno, e tiveram as armas apreendidas.
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Histórico de ocorrências
Em 2009, no primeiro ano como policial, o cabo do Vale participou de uma ocorrência que terminou com a morte de um jovem de 23 anos, em Porto de Santana, Cariacica.
Segundo o boletim da época, Cheverton Silva Guss estava armado e tentou atirar contra os policiais. Quatro agentes estavam presentes, mas apenas o cabo do Vale e outro militar efetuaram disparos.
O inquérito foi concluído em 2013, e a Polícia Civil entendeu que os policiais agiram em legítima defesa.
Cheverton Silva Guss, de 23 anos; Lara Croft, de 34; e Rone Calisto Meira, 39, estão entre as vítimas do cabo Luiz Gustavo Xavier do Vale. Espírito Santo
Reprodução/Rede social
Em 2022, uma mulher trans de 34 anos, conhecida como Lara Croft, foi morta com vários disparos durante uma abordagem no bairro Alto Lage, também em Cariacica. O cabo do Vale atirou junto com outro policial e alegou que a vítima teria ameaçado os militares com um barbeador.
O processo segue na Justiça Militar e resultou no afastamento do cabo do Vale das atividades nas ruas, por isso, atualmente ele cumpria funções administrativas e no dia do crime deixou o posto de trabalho na companhia da corporação em Itacibá, também em Cariacica, onde atuava como guarda.
A mãe de Lara, Silvana Santos, disse que lembrou da filha ao ver as imagens da execução das duas mulheres, em Cariacica.
"A mesma coisa que aconteceu com as moças em Cruzeiro do Sul aconteceu com a Lara. Vizinhos disseram que a polícia saiu e deixou ele executar. Ninguém fez nada para intervir. Como é que pode o crime se repetir? Ele não mudou nem a versão, legítima defesa", falou.
Silvana lamentou que o policial tenha matado mais duas pessoas.
"Precisou chegar ao extremo. Foi a gota d’água. Ele matou a Lara, continuou trabalhando, com acesso às armas para ceifar mais duas vítimas. Precisou disso para a Justiça dizer que vai fazer justiça", lamentou a mãe.
Em 2024, mesmo afastado das ruas, o cabo do Vale atirou em Rone Calisto Meira, de 39 anos, durante uma ocorrência policial. Junto com outros dois militares, ele foi ao bairro Campo Grande para atender a um chamado de invasão em um galpão comercial.
No boletim, os agentes afirmaram que viram Rone com uma faca e relataram que ele resistiu à abordagem e avançou na direção da equipe.
Apenas o cabo do Vale atirou três vezes e atingiu o homem na cabeça. O caso foi encaminhado ao Tribunal do Júri de Cariacica, já que a Justiça entendeu que não se trata de crime militar.
Novo vídeo mostra momento em que policial militar chega e atira em casal de mulheres, no dia 8 de abril, em Cariacica, Espírito Santo
Reprodução/Rede social
Denúncias por lesão corporal
O policial também já foi denunciado duas vezes pelo Ministério Público Militar por lesão corporal grave. Os dois casos ocorreram em 2020.
Em um deles, no bairro Porto Novo, em Cariacica, a denúncia aponta que o militar atirou quatro vezes contra um homem desarmado. Testemunhas relataram ainda que ele derrubou a vítima com uma rasteira, mesmo após os disparos.
O cabo do Vale alegou que foi desacatado, ameaçado e agredido durante a abordagem. Ele foi absolvido em primeira instância por falta de provas e por atraso na denúncia.
O outro caso ocorreu fora do serviço. A vítima foi agredida em uma boate em Itaparica, em Vila Velha, onde o cabo do Vale atuava como segurança particular, atividade proibida para militares da ativa.
O homem precisou passar por cirurgia no maxilar e ficou 11 dias internado.
Prisão e processo
Após a morte das duas mulheres em Cariacica, a Justiça decretou a prisão preventiva do cabo do Vale, que segue detido no Quartel do Comando-Geral, em Vitória.
A Polícia Militar também abriu um processo demissionário contra o militar.
Cabo Luiz Gustavo Xavier do Vale, de 46 anos, está há 18 anos na Polícia Militar e responde a casos com mortes, tiros em suspeitos e denúncias por lesão corporal grave. Espírito Santo
Reprodução/Rede social
"Já determinei a abertura do processo demissionário para o cabo do Vale, porque ele feriu a honra da instituição, o decoro, coisa com a qual nós não coadunamos. Nós saímos diariamente às ruas para proteger e servir as pessoas, então já está instaurado esse procedimento", afirmou o comandante-geral, coronel Ríodo Lopes Rubim.
Segundo ele, o prazo para conclusão do inquérito militar é de 20 dias, mas não há previsão para o término do processo demissionário.
O g1 não conseguiu contato com a defesa do policial até a última atualização da reportagem.
Conduta de outros policiais
Seis policiais militares que presenciaram a execução das duas mulheres não seguiram o protocolo da corporação, que prevê intervenção em crimes contra a vida, segundo o comandante-geral.
“Os nossos protocolos preveem a intervenção em todo crime. Em toda tentativa contra a vida deve haver a intervenção dos nossos agentes, mesmo por parte de um colega. Ali, eles tinham que agir”, disse.
Comandante da PM diz que policiais descumpriram protocolo de intervenção
De acordo com o coronel, havia um superior hierárquico entre os policiais presentes.
"É o que se espera do mais antigo: que tome as providências. Ele teria dado voz de prisão ao final, mas o crime já havia sido cometido. O que se esperava era uma atitude anterior", afirmou.
Os policiais que presenciaram o crime são:
Edson Luiz da Silva Verona (soldado)
Eduardo Ferro Coradini (soldado)
Filipe Gonçalves Vieira (soldado)
Hilario Antônio Nunes (cabo)
Lucas Nogueira Oliveira (aluno soldado)
Valfril do Carmo Carreiro (3º sargento)
Todos foram afastados das atividades nas ruas e tiveram o armamento suspenso. O afastamento completo ainda depende de decisão da Justiça.
O comandante esclareceu que a sétima pessoa que aparece nas imagens não é policial, mas um morador que indicou a localização de uma viatura.
O g1 não conseguiu contato com os policiais afastados até a última atualização da reportagem.
Em nota, a Associação das Praças da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros Militar do Espírito Santo (ASPRA-ES) afirmou que o caso envolve a conduta isolada de um policial e criticou o afastamento dos demais agentes.
A entidade disse que os policiais não tinham como prever a ação e não contribuíram para o crime. "É inadmissível que profissionais que agiram corretamente sejam alvos de medidas com caráter punitivo", afirmou.
Relembre o caso
Novo vídeo mostra momento em que policial militar atira em casal de mulheres em Cariacica
O crime aconteceu na noite do dia 8 de abril, no bairro Cruzeiro do Sul, em Cariacica, na Grande Vitória. De acordo com a apuração, a ex-mulher do militar ligou para ele relatando uma discussão com o casal e dizendo que o filho dos dois também estaria envolvido na situação.
Testemunhas contaram que as duas vítimas e a ex-esposa do policial moravam em andares diferentes. Segundo moradores, a ex-companheira do agente foi ameaçada pelo casal horas antes do crime.
Ainda de acordo com testemunhas, a discussão começou por causa de um ar-condicionado. As mulheres trocavam acusações sobre um possível furto de energia, apesar de residirem em andares distintos.
Na manhã de quarta (8), elas voltaram a discutir, e as vítimas mencionaram o filho que a ex-esposa do PM tem com ele. Foi nesse momento que ela acionou o ex-marido, em horário de trabalho.
Após a ligação, o cabo deixou o posto onde atuava em função administrativa e foi até o endereço acompanhado de outros policiais.
Testemunhas relataram que houve uma discussão antes dos disparos. Daniele morreu no local. Francisca chegou a ser socorrida, mas não resistiu aos ferimentos. Após o crime, o policial foi preso.
Daniele Toneto e Francisca Chaguiana Dias Viana foram mortas a tiros por policial militar em Cariacica, Espírito Santo
Reprodução
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